O que é Uposatha
Uposatha é o dia de observância da tradição budista, guardado quatro vezes em cada mês lunar: na lua nova, na lua cheia e nos dois quartos. Os leigos tomam para esse dia os oito preceitos; a comunidade monástica se reúne e recita a sua regra. Não é uma festa nem um jejum por si mesmo, e sim um dia posto de lado para clarear a mente, escutar o Dhamma e retomar os preceitos.
De onde vem a palavra
Páli: Uposatha (उपोसथ). Das raízes upa e vas: upa (उप) — «perto», «junto a», «aproximando-se»; vas (वसति) — «morar», «permanecer», «repousar». A forma sânscrita mais antiga é upavasatha (उपवसथ).
Literalmente: uma morada temporária no recolhimento, uma aproximação ao repouso sagrado. Não é um dia acrescentado ao calendário, e sim um dia do qual se sai: ficar num lugar, à parte do curso comum das coisas.
O costume vem de muito longe, de quando as pessoas deixavam os afazeres por um dia e se retiravam para se purificar por dentro. Na Índia a upavasatha era a véspera do sacrifício do soma: quem fazia a oferenda largava o trabalho, passava sem comer e velava junto ao fogo. No tempo do Buda o dia ganhou o sentido de hoje: monges e leigos se reuniam para escutar o Dhamma, meditar e tomar os preceitos.
De onde vem o dia
Não foram os budistas que começaram a se reunir nesses dias. Os ascetas errantes de outras escolas já se juntavam no oitavo, no décimo quarto e no décimo quinto dia de cada quinzena para expor a sua doutrina, e as pessoas iam ouvi-los.
O rei Bimbisāra de Magadha reparou nisso e propôs que os monges do Buda fizessem o mesmo. O Buda concordou, e o Vinaya registra passo a passo o que veio depois: no começo os monges apenas se sentavam juntos em silêncio, depois passou-se a expor o Dhamma nesse dia e em seguida a recitar em voz alta a própria regra monástica. É assim que a Sangha guarda o dia até hoje (Mahāvagga II.1).
A observância leiga nasceu da mesma raiz. Quem não se ordenava podia tomar o dia do mesmo jeito: oito preceitos em vez dos cinco habituais, de uma madrugada à seguinte. O Buda expõe essa forma em detalhe em dois suttas sobre a Uposatha do Aṅguttara Nikāya.
O ritmo da lua
Os dias de Uposatha seguem a lua, e não a semana: Lua nova, Quarto crescente, Lua cheia e Quarto minguante. Essas quatro fases dividem o mês lunar de cerca de vinte e nove dias e meio na metade crescente e na minguante.
No tempo do Buda a comunidade se reunia exatamente nesses dias, e a escolha não foi arbitrária. A lua marca um ritmo mais antigo que qualquer calendário, e os dias que ela assinala são dias de pausa natural: a luz se enche ou se esvazia, e nenhuma das duas coisas é um começo ou um fim.
Por que se limitar em alguma coisa
Os oito preceitos não são castigo nem conquista. Eles estreitam o mundo de fora por um dia, para que o de dentro fique audível.
O que costuma encher as horas — comer a qualquer hora, assistir a qualquer coisa, pegar o que estiver à mão — recua, e o que sobra fica mais fácil de ver. A Uposatha ensina a olhar sem fugir: estar no mundo sem se dissolver nele, e perceber como as coisas surgem e passam.
Onde o dia é guardado hoje
Por onde o Theravāda chegou, chegou também a palavra, e ela tomou a forma da língua local. No Sri Lanka a uposatha virou poya, e a poya de lua cheia é feriado nacional: o calendário do país inteiro se apoia nela. Na Tailândia é wan phra, o dia dos monges, e de manhã os templos ficam cheios. Em Mianmar a palavra páli está quase intacta no nome do dia; no Camboja ele se chama thngai sel, o dia dos preceitos.
Cada um desses países conta o mês lunar pelo seu calendário tradicional, e um calendário tradicional pode se afastar um dia da astronomia. As nossas datas são astronômicas: o momento exato em que a lua chega à fase, mostrado no seu fuso horário. Onde o calendário do templo local não coincidir com o nosso, vale seguir o do templo: é nesse dia que a comunidade de fato se reúne.
Mesmo algumas horas vividas com atenção valem a pena. Não se trata de um dia perfeito, e sim de um dia real.
Como passar o dia
Você pode tomar os oito preceitos, ou apenas os cinco que se guardam todo dia. Mesmo no meio de uma semana comum, em casa e entre as tarefas, o dia pode do mesmo jeito ser dado à meditação, à leitura, a gestos silenciosos de bondade e a ficar longe do barulho.
A prática no dia de Uposatha →O que muda
- O sono e a digestão se acertam.
- A irritabilidade e o estresse de fundo afrouxam.
- A respiração e o sistema nervoso voltam ao equilíbrio.
- A atenção se sustenta por mais tempo e com mais calma.
- Os apegos e os hábitos soltam a garra.
- A meditação se aprofunda e a gratidão vem mais fácil.
- A generosidade passa a parecer óbvia em vez de custosa.
- Chegam sozinhas uma leveza e uma clareza.
Nos suttas
O Buda descreve este dia em detalhe nos seguintes suttas:
Que todos os seres sejam felizes